OS PROJETOS DE FORTALECIMENTO DO ENSINO: BRINQUEDOTECA E LAPES

18/02/2013 10:54

OS PROJETOS DE FORTALECIMENTO DO ENSINO: BRINQUEDOTECA E LAPES

 

Arinalda Silva Locatelli[1]

Mônica Rocha[2]

 

Introdução

 

 

A criação e a manutenção de laboratórios, ligados aos cursos de graduação, fundamentam-se na relação do ensino com a pesquisa e a extensão, visando o fortalecimento da formação inicial dos acadêmicos e acadêmicas integrantes do curso superior, em consonância com as proposições das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia. Por se tratar de uma ampla e complexa formação, não se pode pensá-la no espaço restrito da sala de aula, tornando-se, portanto, necessário a complementaridade dos estudos em outros momentos que possibilitem o diálogo entre a teoria e prática. Entende-se assim que:

 

[...] o Curso de Pedagogia trata do campo teórico-investigativo da educação, do ensino, de aprendizagens e do trabalho pedagógico que se realiza na práxis social. Desse ponto de vista, o perfil do graduado em Pedagogia deverá contemplar consistente formação teórica, diversidade de conhecimentos e de práticas, que se articulam ao longo do curso. (LOCATELLI et al, 2007, p. 23)

 

 

As conexões de laboratórios com o ensino podem se estabelecer de várias formas, como: monitorias, oficinas, mini-cursos, pesquisas, entre outras. Nesta perspectiva, com base em um diagnóstico das necessidades do curso de Pedagogia, feito em 2005, foram implantados cinco laboratórios: o Laboratório de Apoio Pedagógico Especializado (LAPES); o Centro de Documentação e Memória Timbira (CEDOC); o Laboratório de Áudio-Visual; a Brinquedoteca “Mário de Andrade” e o Laboratório de Informática (LABIN). Cada qual vinculado ao um grupo e projeto de pesquisa existente à época, tendo um docente como coordenador de cada proposta, com exceção do LABIN[3].

Cada laboratório surgiu com um objetivo específico, mas todos convergindo para o fortalecimento do ensino superior via a formação geral e específica do acadêmico, enquanto usuário, pesquisador dos recursos materiais e aparelhos existentes em cada um desses espaços, seja para preparação de trabalhos nas atividades de Estágio Supervisionado ou de outra disciplina do curso, seja para o exercício de atendimento ao público acadêmico ou à comunidade em geral. Neste viés, o ensino constrói uma interface com a pesquisa e a extensão, que [...] estão voltadas para a busca de novos conhecimentos e técnicas destinadas ao cultivo da atitude científica, indispensável na formação do profissional da Educação. (LOCATELLI et al, 2007, p. 106).

Em síntese, constituem-se espaços de estreita ligação com as atividades de extensão, pois estão abertos à comunidade; também estão interligados à pesquisa, uma vez que as atividades realizadas permitem a observação, a aplicação, a experimentação e a produção de resultados.

Embora tenhamos mencionado a criação de cinco laboratórios ligados ao curso de Pedagogia do Campus Universitário de Tocantinópolis, em um momento importante em que também se discutia as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o referido curso, abordaremos aqui, de forma mais específica, acerca da história de dois desses laboratórios. São eles: a Brinquedoteca Mário de Andrade e o Laboratório de Apoio Pedagógico Especializado (LAPES).

Em termos de exposição, o presente texto se estrutura em três tópicos: o primeiro trata de alguns aspectos referentes à formação docente e as exigências postas ao Pedagogo; o segundo abrange de forma sucinta a história dos laboratórios de ensino Brinquedoteca e LAPES e no terceiro tópico trazemos algumas considerações finais acerca da temática abordada.

 

 

Conversando sobre formação docente

 

Fazendo uma breve incursão a acerca das políticas de formação docente, com base em Candau (1982), podemos tecer o seguinte contexto: na primeira metade da década de 1970 a ênfase dos processos de formação residia na instrumentalização técnica do profissional da educação, resultante das idéias da psicologia comportamental e do tecnicismo presentes no referido período. Neste contexto, a identidade docente que estava em voga era a de um organizador dos componentes de ensino-aprendizagem (conteúdos, objetivos, estratégias de ensino, avaliação, recursos, etc.). Esta visão foi alterada na segunda metade da mesma década, graças ao movimento que se iniciava contrário à prevalência da proposta técnica e funcionalista na educação. Emergiu neste momento a tentativa de se colocar no centro das discussões a problemática educacional vivenciada com base nos determinantes históricos, político-sociais que lhe condicionavam.

Dando sequência ao percurso feito pela autora, na década seguinte, dos anos de 1980, o enfoque dos temas abordados na formação docente refletia o movimento da sociedade na busca pela superação do autoritarismo instituído desde 1964, almejando a redemocratização social. Assim, o caráter político da prática pedagógica e o compromisso do educador com as classes populares, foram os dois pontos centrais nas discussões inerentes à identidade docente. Registrou-se ainda a abordagem de temáticas como: a desvalorização e descaracterização do magistério como formação; a deformação do profissional do ensino e a desmotivação gerada pela falta de condições de trabalho, pela instabilidade no emprego, pelas relações hierárquicas, pelo universo burocrático e pela condição de simples assalariado a que vinha sendo submetido; a discussão sobre a natureza do magistério se era ‘’bico’’, vocação ou profissão e a função do educador na prática social.

Nos anos de 1990 a questão central girou em torno da formação do professor-pesquisador, que tinha como perspectivas subjacentes à possibilidade de articular teoria e prática pedagógica, pesquisa e ensino, reflexão e ação didática. Ainda neste período, ganhou destaque a questão da formação continuada, situada em três eixos de abordagem: a pessoa do professor e sua experiência, a profissão de professor e seus saberes específicos, a escola e seus projetos educacionais. (CANDAU, 1982).

Em suma, podemos apreender que passamos de um professor “neutro”, e com ações eminentemente técnicas em 1970, para um professor engajado política e socialmente nos anos de 1980, chegando àquele profissional, em 1990, que tem na reflexão e na pesquisa de sua própria prática o alicerce de sua identidade.

Com base nesta breve contextualização sobre a formação docente, podemos aferir que as Diretrizes Curriculares para o Curso de Pedagogia (2006) trazem consigo a perspectiva de um pedagogo em consonância com o perfil delineado nos anos de 1990, fazendo referências em diversos parágrafos sobre a importância da pesquisa, reflexão crítica e estudos teóricos e práticos como elementos constitutivos da formação do profissional da educação.

Buscando seguir o exposto nas Diretrizes, o Projeto Político Pedagógico do Curso de Pedagogia da UFT, Campus de Tocantinópolis explicita que para se atingir o fortalecimento do ensino é necessário que,

 

A atitude investigativa deve ser uma constante no processo de formação do pedagogo, permitindo um mergulho no mundo complexo da prática pedagógica, amparado em sólidos referenciais teóricos e disciplina intelectual, no qual ele se envolve afetiva e cognitivamente, questionando as próprias crenças, propondo e experimentando alternativas. (LOCATELLI et al, 2007, p.112).

 

Esta reflexão leva ao entendimento complementar de que a formação docente pode ser compreendida como,

[...] resultado de um engajamento ativo no coletivo da profissão, um coletivo atento e dedicado ao exercício da docência em sua cotidianidade, de maneira crítica, orientada por perspectivas político-pedagógicas explicitamente embasadas em determinado campo científico e adequadamente conduzidas. (MARQUES, 1992, p. 45).

 

Tal perfil pressupõe uma formação inicial que prime pela unidade entre teoria e prática em diversos momentos do processo de formação do profissional da educação. Neste sentido, a realização de atividades extensionistas, de pesquisa e a criação de espaços laboratoriais contribuem para a superação da visão dicotômica dos aspectos práticos e teóricos que compõem os conteúdos das diversas disciplinas do curso de pedagogia.

 

O curso de Pedagogia e os projetos de fortalecimento do ensino

 

  1. A Brinquedoteca Mário de Andrade

As brincadeiras são muito presentes e importantes na primeira infância, período de 0 a 5 anos. De acordo com Vigotsky a principal característica do brinquedo está no atendimento às necessidades das crianças, sendo a partir dele que uma zona de desenvolvimento dá vazão a outra. De acordo com o autor "o brinquedo contém todas as tendências do desenvolvimento condensada, sendo, ele mesmo, uma grande fonte de desenvolvimento." (VIGOTSKY, 1994, p. 135). Sendo assim, espaços como as Brinquedotecas constituem-se locais privilegiados para o desenvolvimento infantil nos aspectos: cognitivos, linguísticos e psicomotores.

As Brinquedotecas podem existir no mais variados espaços como: hospitais, escolas, empresas, universidades. Cada uma com objetivos e especificidades próprias. Em relação ao espaço Universitário, segundo Santos (2005), a Brinquedoteca congrega três conjuntos de princípios: a) ensino, pois colabora na formação dos recursos humanos ao oferecer possibilidades de diferentes cursos e experiências, em termos da realização de estudos e estágios; b) pesquisa, pois funciona como um laboratório em que alunos e professores podem se dedicar à exploração do lúdico enquanto recurso para a investigação do desenvolvimento infantil, oportunizando a criação e testagem de brinquedos e jogos; c) extensão, pois se refere a um espaço voltado ao atendimento da comunidade por excelência, na prestação de serviços variados de orientação e assessoramento de escolas e instituições infantis, assim como no desenvolvimento de cursos, palestras e fomento de criação de novas Brinquedotecas.

Ao acompanhar as atividades de estágios da Universidade Federal do Tocantins (UFT) no Campus de Tocantinópolis nas Escolas de Educação Infantil, no ano de 2000, constatamos poucas atividades envolvendo jogos e brincadeiras e nenhuma situação-problema de caráter representativo de sua realidade. Observamos ainda que os profissionais atuantes nas instituições desconheciam brincadeiras propiciadoras de aprendizagem significativas, o que, a nosso ver, impede o pleno desenvolvimento da criança conforme determinação da Lei de Diretrizes e Bases LDB 9.394/96 em seu Artigo 29:

 

A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. (BRASIL, 1996).

 

Buscando suprir esta carência, foram desenvolvidos dois Projetos de extensão. O primeiro, denominado: Brincadeiras, jogos e músicas na Educação Infantil e 1º Ciclo, coordenado pelas professoras Jane Elaine Nunes Cruz Barros e Mônica Rocha, os quais tinham como referência o curso Normal Superior. O Projeto proporcionou à Professora Mônica juntamente com sua orientanda Sueila de Sousa Martins, uma premiação, pela apresentação dos resultados da pesquisa: “Aprendendo com o Lúdico na Educação Infantil” na X Jornada de Iniciação Científica da UNITINS/UFT no ano de 2003. Esta pesquisa permitiu às escolas e as pesquisadoras observarem e compreenderem a importância dos jogos e das brincadeiras para as escolas de Educação Infantil. Propiciou ainda às professoras ampliarem seus conhecimentos através das leituras, da formação cultural, reflexões e o desenvolvimento da aprendizagem através do lúdico, na confecção e na exploração dos jogos.

O segundo projeto denominado: “Aprendendo com a arte: da formação(à)ção  do educador”, teve como coordenadora geral a professora Eliana Henriques Moreira, contando com a participação de outras professoras, dentre elas a pesquisadora Mônica Rocha. Uma das vertentes do projeto era observar a formação cultural das crianças da região, resgatando costumes e tradições da infância, as brincadeiras e suas contribuições para o trabalho pedagógico, com o objetivo de verificar como o aluno adquire conhecimento e aprimora sua aprendizagem, através do lúdico na Educação Infantil, enfocando a necessidade de sua valorização no processo de aprendizagem.

O referido projeto desencadeou, em 2005, a criação de uma Brinquedoteca no Campus da UFT de Tocantinópolis, através do envolvimento de um grupo de professoras, de alunas estagiárias e pesquisadoras e da Senhora Elza Simões, Bibliotecária do Campus Universitário de Tocantinópolis na época, que doou seu acervo[4] e dedicou-se a instalar tal espaço no Campus, sendo a única existente no Município e a primeira da UFT. Ao concluir as instalações, a Brinquedoteca foi denominada “Mário de Andrade”, em homenagem a um dos grandes defensores do direito da criança ser criança.

Inicialmente a Brinquedoteca Mário de Andrade esteve vinculada ao Laboratório Experimental das Linguagens e das Artes – BÚSSOLA[5]. Em 2007, com a elaboração do novo Projeto Político Pedagógico para o Curso de Pedagogia, a Brinquedoteca Mário de Andrade, foi institucionalizada como um laboratório do referido curso, definido como um local:

 

[...] destinado a atividades com caráter lúdico e artístico incorporando a diversidade interdisciplinar de acordo com a área de formação de seus participantes [...] é um espaço rico em possibilidades para professores e acadêmicos desenvolverem pesquisas de observação da relação da criança com o brinquedo. (LOCATELLI et al, 2007, p. 158).

 

 

Deste modo, sua finalidade além do atendimento às crianças da comunidade escolar local reside na possibilidade de realização de estudos e pesquisas que visem ampliar a utilização de recursos envolvendo diversas linguagens na atuação do educador e educadora, trazendo contribuições para a educação na Região do Bico do Papagaio, haja vista que o Campus de Tocantinópolis reúne acadêmicos de diversos municípios circunvizinhos.

O espaço físico da Brinquedoteca foi projetado inicialmente em 04 salas, divididas em 06 ambientes: saguão - recepção (serviço de circulação, exposição etc.); sala 1 - área dividida em vários ambientes, cada um montado a partir de um tema: um escritório, uma cozinha, um quarto, uma sala, um palco com instrumentos musicais etc.; sala 2 - biblioteca especializada em livros infantis; sala 3 - teatro de fantoches (estoque de fantasias, máscaras etc.); sala 4 - oficina de sucata (uma pequena usina de criatividade, onde as crianças aprendem a utilizar o que é jogado fora e a desenvolver suas habilidades e área ao ar livre - espaço reservado para ensinar aos pequenos, brincadeiras tradicionais como: coelhinho na toca, cabra cega, etc., que a maioria já não conhece mais.

Com a reforma ocorrida no Campus no período de 2008 a 2009, a Brinquedoteca ficou fechada por um tempo e teve que mudar de local. Atualmente ocupa uma (01) sala localizada na Ala das salas de aula do Campus, ao lado da sala do projeto Cineclubinho UFToca[6]. Está organizada em quatro espaços: uma recepção, um canto da leitura, um canto dos jogos, um canto dos brinquedos. Em determinados momentos também é utilizado o pátio externo à sala para o desenvolvimento de brincadeiras que necessitem de mais espaço para movimentação da criançada.

Dentre as atividades desenvolvidas pela Brinquedoteca pode-se mencionar a visita das crianças de escolas locais ao espaço do laboratório, para a realização de atividades lúdicas: brincadeiras, construção de brinquedos a partir de sucatas, pinturas, histórias infantis. Em relação aos acadêmicos, a realização de estudos sobre ludicidade, construção da linguagem e desenvolvimento infantil, vinculado ao projeto de pesquisa: Linguagens e Cultura: uma abordagem social, histórica e étnica da formação lingüística no Bico do Papagaio. O laboratório também tem subsidiado metodologicamente atividades docentes ligadas às disciplinas da estrutura curricular do Curso de Licenciatura, como por exemplo: Fundamento e Metodologia do Trabalho em Educação Infantil, Alfabetização e Letramento, Didática, etc. Além disto, tem desenvolvido oficinas sobre a importância do lúdico durante a realização de eventos do Campus.

Destarte a Brinquedoteca Mário de Andrade busca realizar as atividades servindo de base para o desenvolvimento de pesquisas e reflexões a cerca da contribuição do brincar para o desenvolvimento da criança, colaborando assim com formação do profissional que ainda irá atuar e o que já atua com a faixa etária infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.

A Brinquedoteca objetiva ser um espaço de aprendizagem e valorização do lúdico, pressupondo o desenvolvimento e crescimento do sujeito de forma integral (emocional, social, racional), favorecendo assim a constituição da autonomia, responsabilidade, confiança, potencializando ainda habilidades como percepção, imaginação, memória, raciocínio lógico, criatividade. Parafraseando Kuhlmann Jr. (2010, p. 176) “[...] o brinquedo seria um instrumento educacional incomparável, proporcionando uma variedade e quantidade de noções intelectuais, de impressões sensoriais, de imagens e sensações duráveis: as primeiras e as melhores lições de coisas são dadas pelos brinquedos”.

Acreditamos que o referido projeto de extensão, constitui um importante lócus de formação interna (acadêmicos) por meio de realização de pesquisas e ações interdisciplinares que envolvam diversas áreas do conhecimento e o intercâmbio entre projetos de docentes do Campus e formação externa (parceria com escolas de Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental), tanto na garantia do direito a infância por meio do brincar, como fonte de formação para os profissionais que atuam nas escolas de Tocantinópolis. 

Em síntese, parafraseando Friedmann (1998) a Brinquedoteca representa um espaço para aqueles que acreditam na infância e no potencial transformador do brincar.

 

 

  1. O Laboratório de Apoio Pedagógico Especializado – LAPES

 

A discussão sobre o espaço que a relação teoria e prática ocupa na formação acadêmica do profissional da educação tem revelado o quanto se trata de uma discussão complexa, haja vista, que “as dimensões da teoria e da prática são indissociáveis, já que a teoria é um conjunto de regras também práticas e que a prática não é um ato qualquer, mas um ato que concretiza um objetivo e é pensado em relação a princípios” (MICARELLO, 2005, p. 146).

O que observamos, no entanto, é um dilema do profissional da educação a respeito da dicotomia entre teoria/prática, explicitada na expressão “na teoria é uma coisa, na prática é outra”. Como se uma dimensão não tivesse relação com a outra, revelando o desconhecimento a respeito da sua unidade. Na realidade, a ênfase nos estudos teóricos não capacita o futuro profissional para fazer de seus conhecimentos uma produção nova. Nem a ênfase na prática ajuda a conhecer os instrumentos que o capacitarão para o desempenho de seu próprio trabalho. (LOPES E SOUZA, 2004). O desafio posto para a formação docente é o de se atingir um equilíbrio de compreensão a respeito da função da teoria e da prática na ação pedagógica.

Em se tratando da formação acadêmica, o espaço/tempo privilegiado para o diálogo entre estas duas dimensões comumente tem sido restrito ao momento do Estágio Supervisionado, que se configura um tempo muito curto para que o profissional em formação consiga reconstruir a teoria e apropriar-se de seu fazer, agindo livre e conscientemente a partir de uma reflexão sobre os desafios enfrentados na prática com base na experimentação de metodologias e recursos didáticos pedagógicos que contribuam na atividade de ensino (MICARELLO, 2005).

Segundo Facci (2004), em se tratando dos conhecimentos que o professor(a) precisa dominar é fundamental que se tenha os conhecimentos específicos da disciplina ou disciplinas a serem ministradas; o conhecimento didático curricular; e o saber pedagógico, que trata das teorias da educação. A ausência desses pré-requisitos diminui a possibilidade de que os professores(as) consigam implementar uma prática pensada e refletida, fundamentada teoricamente em conhecimentos que permitam diversificar as ações metodológicas, propiciando uma diminuação da insegurança sobre o que é necessário fazer em sala de aula, o uso mecânico dos recursos didáticos pedagógicos e os equívocos que ocorrem na hora de traduzir em ações aquilo que é visto no plano teórico.

De acordo com Lopes e Souza (2004, p. 01) as discussões realizadas no âmbito universitário apontam que,

 

A formação teórica e prática adquirida na universidade não tem sido suficiente para configurar um novo cenário na educação brasileira, e nessa região norte do estado do Tocantins esse quadro de fragilidade é ainda maior, levando-nos a entender que a teoria adquirida não se transforma em prática ou práxis na escola de educação básica. Diante disso, temos questionado se a formação para professores dos anos iniciais do ensino fundamental e da educação infantil, oferece elementos suficientes para que os futuros docentes saibam equacionar os conhecimentos adquiridos teoricamente em suportes de práticas que amenizem o fracasso escolar.

 

 

Destarte, um trabalho docente que perspective a superação da assimetria entre as competências técnicas e intelectuais, e as competências éticas e políticas, através da aquisição de conhecimentos do fazer e do saber, do pensar e do agir, tornar-se fator indispensável para que o futuro docente desenhe competentemente sua função em todas as dimensões com qualidade e produtividade.

Com base nas reflexões acima, delineou-se a proposição de um projeto que oportunizasse aos alunos superar esta lacuna. Assim, no 2º semestre de 2004 foi criado o Laboratório de Apoio Pedagógico Especializado (LAPES), que passou a funcionar em 2005 quando foi cadastrado na Pró-Reitoria de Extensão (PROEX). Constitui-se um projeto do Curso de Pedagogia de Tocantinópolis, proposto pela professora France Lopes e o professor Sauloéber Tarso de Sousa[7], e assim como a Brinquedoteca, este é outro espaço que visa fortalecer o processo de ensino na Universidade.

Trata-se de um espaço interdisciplinar que busca suprir a necessidade dos alunos (as) de uma iniciação nas atividades docentes. Nesse sentido, os acadêmicos(as), antes de irem às escolas, podem utilizar o Laboratório para prepararem suas aulas, aprenderem a conhecer, a manusear e a utilizar adequadamente os recursos didático-pedagógicos que os auxiliarão no desenvolvimento metodológico de suas atividades quando estiverem estagiando. Para tanto, o LAPES é um espaço rico em recursos audiovisuais, considerando que estes recursos são eminentes auxiliadores no processo de ensino aprendizagem. (LOPES e SOUZA, 2004).

A perspectiva é que nesse espaço a pesquisa e a constante reflexão teórica e contextualizada sejam mediadoras entre o conhecimento científico adquirido e as práticas pedagógicas, uma vez que:

 

A Proposta do Laboratório se fundamenta em pesquisas da área de psicologia que têm anunciado que os recursos audiovisuais são responsáveis por 70% de nossa comunicação diária, visto que à quase toda hora ou instante estamos vendo e ouvindo alguma coisa. Assim, o ensino através dos recursos audiovisuais apresenta uma harmonia entre o refletir e o fazer e amplia a compreensão dos ouvintes e os ajudam a reter as informações por muito mais tempo. (COELHO e LOPES, 2007, p. 05).

 

Atualmente, o LAPES está instalado em quatro salas do Bloco IV do Campus da UFT de Tocantinópolis, sendo que a sala 01 está equipada com materiais para as áreas de ciências físicas e biológicas, história e meio ambiente; A sala 02 é dedicada às atividades de jogos, matemáticas e música; A sala 03 oferece materiais para estudos psicologia infantil e atividades de artes e linguagens; A sala 04 abriga objetos e documentos que preservam a história do curso em seus 20 anos, e é um espaço reservado à memória, considerando com um ensaio para a criação de um futuro Museu  da Memória da Pedagogia.   

Metodologicamente o LAPES tem procurado atender aos professores(as) de todas as disciplinas (tanto do Campus como das escolas locais), que no desenvolvimento dos conteúdos apresentam necessidade de atividades ou carga horária prática, especialmente as da área de metodologia, didática e de planejamentos. Além, das próprias disciplinas de Estágio nos Anos Iniciais da Educação Infantil. Durante sua utilização, os usuários podem reservar momentos para leituras, preparação de aulas, construção de materiais pedagógicos, ministrar aulas de reforço para alunos com dificuldades de aprendizagem, através de projetos de pesquisa-ação de estágio.

As atividades desenvolvidas pelo LAPES, além do caráter extensionista, tem possibitado o desenvolvimento de pesquisas, através de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), Monografia de Especialização e no 2º semestre de 2007, foi realizada uma experiência de alfabetização através de jogos com alunos com dificuldade de aprendizagem. O funcionamento do Laboratório conta com a presença de alunos (as) bolsistas que desenvolvem ali suas atividades de pesquisa e de extensão. Estes bolsistas atuam também no controle dos horários de utilização do Laboratório pelos professores e aluno (as).

De acordo, com as avaliações realizadas durante seu período de existência, a criação deste espaço no Campus de Tocantinópolis representa um avanço significativo para que a formação dos futuros professores e professoras se desenvolva com maior qualidade, proporcionada pela oportunidade que os alunos e alunas têm de confrontar teoria e prática, com base no tripé ensino, pesquisa e extensão, de forma experimental antes de vivenciarem o estágio supervisionado, ou mesmo, antes de se tornarem profissionais atuantes nas instituições de ensino do nosso Município ou de localidades da região do Bico do Papagaio.

 

Considerações finais

 

Entendemos que, a princípio, seria perigoso pontuar conclusões, visto que a compreensão da importância da existência desses laboratórios para o curso de Pedagogia e o aperfeiçoamento da sua utilização pelos acadêmicos e pela comunidade escolar enquanto fonte de pesquisa e fortalecimento da docência ainda é muito tímida diante de suas possibilidades. Mas, por outro lado, sentimos a necessidade de frisar que em se tratando de um trabalho que está em processo de construção, um dos componentes essenciais na constituição deste tem sido suas possíveis contribuições.

Desta forma, acreditamos que os dois projetos aqui mencionados, desenvolvidos pela UFT de Tocantinópolis, tem contribuído na formação dos acadêmicos (as) e propiciado oportunidades de pesquisas, novos aprendizados e até mesmo a desmistificação de alguns preconceitos por meio do contato com elementos da profissão escolhida. Podemos citar, por exemplo, a participação de alunos do sexo masculino nas atividades lúdicas, o que vem colocando em cheque a errônea compreensão de que a educação, e em especial a educação infantil, é um espaço eminentemente feminino. Outra quebra de preconceito diz respeito à própria concepção do termo ludicidade, entendido a priori por alguns como algo desconexo do processo de aprendizagem.

Podemos avaliar ainda que a população infantil que já teve contato com a Brinquedoteca Mário de Andrade, seja em visitas particulares ou por meio das escolas, possui um carinho especial pelo projeto, sempre cobrando dos adultos (sejam professores ou pais) uma próxima visita. O momento da partida é sempre difícil para as crianças, que não concordam com o término da brincadeira, acreditando que o tempo foi insuficiente. Tais observações ratificam a importância do projeto para o público ao qual se destina. Evidenciando assim, a singularidade do lúdico para o desenvolvimento da criança e suas múltiplas linguagens.

As mesmas considerações, no que se refere a sua notória importância para o fortalecimento do ensino no Campus, se aplicam ao projeto LAPES. Este tem possibilitado pesquisas e descobertas aos estagiários, professores e monitores pesquisadores, concretizadas em trabalhos de conclusão de curso, artigos apresentados em eventos científicos e na vida profissional de alguns dos nossos egressos.

Consideramos ainda que, quando estes alunos entrarem no mercado de trabalho levarão as descobertas para seu campo profissional. Destarte, poderemos analisar quais diferenças estes profissionais estarão proporcionando à educação no município de Tocantinópolis e ou circunvizinhos.

 

 

Referências

 

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF, 1996. Disponível em: http://portal.mec.gov.br

 

CANDAU, Vera Maria F. Formação continuada de professores: tendências atuais.  In: REALI, Alice Maria de M. R.; MIZUKAMI, Maria da Graça N. Formação de Professores: tendências atuais. São Carlos: EdUFSCar, 1996.

 

COELHO, S. R ; LOPES, F. R. Recursos Educacionais e Aprendizagem: Um Olhar sobre o Laboratório de Apoio Pedagógico Especializado - LAPES. In: III Seminário de Iniciação Cientifica da UFT, 2007, Palmas. Anais do III Seminário de Iniciação Científica da UFT, 2007.

 

FACCI, Marilda Gonçalves Dias. Valorização ou esvaziamento do trabalho do professor?:um estudo crítico-comparativo da teoria do professor reflexivo, do construtivismo e da psicologia vigotskiana. Campinas, SP: Autores Associados. 2004. (Coleção formação de professores).

 

FRIEDMANN, Adriana.(et.al.). O direito de brincar: a brinquedoteca. 4 ed. São Paulo: Edições Sociais, Abrinq, 1998

 

KUHLMANN Jr., Moysés. Infância e educação infantil: uma abordagem histórica. 5 ed. Porto Alegre: Mediação, 2010.

 

MARQUES, Mário Osório. A reconstrução dos cursos de formação do profissional da educação. Em Aberto. Brasília, ano 12, n. 54, p. 43-50, abr./jun. 1992.

 

MICARELLO, Hilda. Formação de profissionais da Educação Infantil: “sair da teoria e entrar na prática”? In: KRAMER, Sônia (Org.). Profissionais de educação infantil: gestão e formação. São Paulo: Ática, 2005.

 

LOPES, Francisca R.; SOUZA, Sauloéber Társio de. Projeto de Criação do Laboratório de Apoio Pedagógico Especializado (LAPES). Fundação Universidade Federal do Tocantins (UFT) – Campus de Tocantinópolis, 2004.

LOCATELLI, C.; LOPES F. R. et. all. Projeto Político Pedagógico do Curso de Pedagogia. Fundação Universidade Federal do Tocantins (UFT), Campus de Tocantinópolis, 2007.

 

SANTOS, Santa Marli P. (Org.) Brinquedoteca: o lúdico em diferentes contextos. 10 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.

 

VIGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 5 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

 



[1]           Pedagoga, Especialista em Supervisão Educacional, com Mestrado em Educação. Professora Assistente da Universidade Federal do Tocantins, Campus de Tocantinópolis. Email: naldalli@uft.edu.br

[2]           Pedagoga, com especialização em Psicopedagogia, Tecnologia e Educação, Sociedade, Comunicação e Meio Ambiente. Professora Efetiva da Secretaria Estadual da Educação do Tocantins, Técnica na Coordenadoria de Tecnologias Aplicadas a Educação – Formação de Professores em Tecnologias. Email: monicarocha@seduc.to.gov.br/monichatoc2009@gmail.com.

[3]          Cf. o PPC do Curso de Pedagogia, o CEDOC, a Brinquedoteca, o Audiovisual e o LAPES, tinham seus primeiros coordenadores ligados ao grupo - Educação: Sujeitos, linguagens e formação, inseridos respectivamente nas linhas de pesquisa: Território, Memória e Identidade; Linguagens, Cultura e Formação; e Sujeitos, Signos e Linguagens (PPC, 2007, p. 108).

[4]              A bibliotecária possuía uma Brinquedoteca Particular denominada Cecília Meirelles.

[5]              A Brinquedoteca Mário de Andrade teve como professoras coordenadoras: Eliana Henrique Moreira e Mônica Rocha, Lucelma Braga e Arinalda Silva Locatelli.

[6]              Projeto de extensão criado em 2008, inicialmente como uma ação da Brinquedoteca, mas atualmente está cadastrado separadamente. Seu objetivo é promover o áudiovisual como um agente de desenvolvimento cultural e social para as crianças tocantinopolinas, a partir de sessões de cinema infantil.

[7]              Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal de Uberlândia – UFU

 

PUC Goiás - Esta publicação foi elaborada pela Editora da PUC Goiás e impressa na Gráfica e Editora América LTDA